Matagal de plantas lenhosas

O matagal de plantas lenhosas, correntemente conhecido como “mato”, é um conjunto de plantas muito plásticas, que antes da intervenção humana na paisagem tinha por certo uma presença muito mais fragmentada e dispersa do que hoje, só sendo provavelmente dominantes em situações de solos demasiado delgados para suportar arbustos ou árvores. Como muitas delas são plantas pioneiras, que colonizam solos e habitats perturbados, a destruição dos bosques originais abriu-lhes caminho, tendo-se adaptado também à forma dominante de usufruto humano da paisagem de montanha: a pastorícia extensiva.

Os matagais presentes na área do Cabeço Santo têm composições que têm alguma variabilidade consoante os tipos de solo, a altitude, e a exposição, mas as espécies que contêm permitem caracterizá-los claramente como ”matagais atlânticos”. As espécies que lhe são mais características são, genericamente, as urzes e os tojos, embora a carqueja e as cistáceas também sejam muito abundantes.

É difícil dizer qual a espécie de urze globalmente mais abundante pois em cada local tende a predominar uma espécie. Uma das mais abundantes e conhecidas é certamente a Erica umbellata (queiroga). Também abundante e formando por vezes povoamentos quase extremes é a Erica ciliaris (carapaça). Uma das urzes mais abundantes e bem distribuídas é certamente a Calluna vulgaris (torga, mogariça, barba do monte; como relativamente a outras urzes, nenhum dos vários nomes vulgares que aparecem na literatura é de uso habitual na nossa região; será isso mais um sintoma da pouca consideração que se tem por essas plantas?). A última das urzes bem distribuídas na nossa paisagem é a Erica cinerea (queiró).

As urzes seguintes não têm uma distribuição tão generalizada como as anteriores, o que não significa que não sejam abundantes em determinados locais. É o caso da Erica scoparia (urze das vassouras), que é abundante apenas em todo o Cabeço Santo praticamente até ao Feridouro. É em particular uma das urzes abundantes nas áreas de medronhal do Cabeço Santo. Tem um porte arbustivo, tal como a Erica arborea (urze branca) e a Erica australis (urze vermelha).

Entre os elementos dominantes do matagal, e, em alguns locais, dominantes em relação às urzes, encontramos os tojos. Os tojos pertencem à família das leguminosas que, tal como as herbáceas da mesma família mais conhecidas (ervilhas, ervilhacas, favas, luzernas,…) se associam a bactérias do género Rhyzobium, permitindo-lhes fixar o azoto atmosférico. Como os tojos se estabelecem mesmo em solos pobres e degradados, isso tem uma enorme importância, pois ao decair, as plantas não apenas contribuem significativamente com matéria orgânica para o solo como disponibilizam os nutrientes fixados a outras plantas, não apenas o azoto, mas também minerais como o potássio, de que algumas espécies de tojo são particularmente acumuladoras. Este processo pode ser natural (os tojos são relativamente sensíveis ao ensombramento, tendendo a secar na sua presença) ou provocado, se as plantas forem cortadas. Sob esta perspectiva – a da melhoria das propriedades do solo – os tojos podem-se considerar como plantas valiosas. Também terão algumas desvantagens, claro. Uma das mais importantes é que ardem com vigor, mesmo enquanto verdes, o que tem implicações e perigos óbvios. Também têm espinhos agressivos, mas isso é um inconveniente menor. Ás vezes, podem-se tornar invasores. Do lado favorável, são plantas melíferas, que por vezes estão em flor durante quase todo o ano.

Uma das espécies que encontramos na nossa flora é o Ulex europaeus (tojo-arnal, tojobravo). Também frequente é o Ulex minor (tojo-molar), que coexiste frequentemente com o primeiro. Distingue-se dele pelo facto de os seus ramos estarem mais densamente cobertos de espinhos embora estes, como os próprios ramos, não sejam tão picantes e robustos. Isto torna-o um tojo mais fácil de desfazer com uma destroçadora de mato. Não apenas por isso, mas por dar origem a uma maior quantidade de matéria orgânica por unidade de área, este tojo é mais interessante do que o primeiro em trabalhos de regeneração do solo. De resto, partilha com ele outras características interessantes já descritas. Ambos estes tojos são característicos de zonas com clima de influência atlântica, encontrando-se tão para norte como as terras altas da Escócia.

Os tojos não são as únicas leguminosas do nosso matagal lenhoso. Frequentes, embora não tanto como os tojos, e não tão bem distribuídas, são as plantas do género Genista. A mais abundante é a Genista tridentata (= Pterospartum tridentatum – carqueja). A Genista triacanthos é uma planta espinhosa com algumas semelhanças com as plantas do género Ulex sendo por isso também popularmente designada como “tojo”, tojo-molar em algumas regiões. A última, em termos de representatividade, das leguminosas da nossa paisagem é a giesta, sendo que a espécie que aqui se encontra é a giesta-negral ou giesteira-das-serras (Cytisus striatus).

Outra família bem representada em alguns locais, particularmente por duas das suas espécies é a das Cistáceas. A esta família pertence uma espécie, o Cistus ladanifer (esteva) bem conhecida de quem viaja para sul na Primavera e no Verão. Com efeito, muitos solos pobres não calcários da zona mediterrânica estão extensa e densamente cobertos por esta espécie, cujas plantas se cobrem de grandes flores brancas na Primavera e exalam um agradável odor no Verão (devido ao ládano – substância pegajosa que cobre as folhas). No entanto a esteva não existe na nossa região.

Mais discreta mas podendo ser localmente abundante, existe o Cistus psilosepalus (sanganho). Na Primavera, enche-se de flores brancas, que são avidamente procuradas por todas as classes de insectos, chegando-se a presenciar lutas entre eles na defesa de uma flor! No entanto, logo no princípio do Verão desaparecem para dar lugar à maturação das sementes, que são também produzidas em abundância.

De flores semelhantes ao anterior mas de folhas mais curtas e largas e com pecíolo é o sanganho-mouro (Cistus salvifolius). Uma cistácea menos abundante, aparecendo sobretudo nos matagais não eucaliptados do Cabeço Santo, é o Cistus ocymoides.

Passemos agora a uma família com plantas bem conhecidas de todos, embora realmente só sejam abundantes nas áreas não eucaliptadas do Cabeço Santo. A esta família (a das Labiadas, ou Lamiaceas) pertence o alecrim, mas as espécies que realmente se encontram espontâneas nas nossas montanhas são as lavandas e os tomilhos. Entre as lavandas, a espécie mais difundida é a Lavandula stoechas, mas dado que se trata de uma espécie bastante polimorfa, é relevante referir a sub-espécie. A que ocorre no nosso entorno é a Lavandula stoechas subsp. Pedunculata (rosmaninho). A espécie de tomilho que aqui encontramos é Thymus caespititius,

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) é uma planta interessante e invulgar, em particular pela sua forma de frutificação, que ocorre nuns órgãos que parecem folhas mas não o são (cladódios), embora funcionem como tal (!) enquanto as verdadeiras folhas, muito pequenas e caducas, passam despercebidas.

A última das plantas lenhosas de pequeno porte é Lithodora prostata subsp. prostata, conhecida pelo nome comum de erva-das-sete-sangrias.