Definição e contextualização

O Projecto Cabeço Santo define-se como um projecto de restauração ecológica e paisagística, tendo em perspectiva a re-naturalização de áreas antes exploradas ou a melhoria do estado ecológico daquelas onde a vegetação espontânea é já dominante. Estas últimas são sobretudo as áreas de vegetação rupícola e de solo marginal do Cabeço Santo, maioritariamente dentro da mata da Altri Florestal, onde as intervenções se realizaram sobretudo nos primeiros anos do projecto. As primeiras são também áreas da mata onde o eucaliptal foi descontinuado, e onde se realizaram trabalhos a partir de 2008, mas são também, sobretudo desde 2012, áreas da Quinta das Tílias sob exploração anterior de eucaliptal. A “coluna vertebral” da área de intervenção é o Ribeiro de Belazaima, em torno do qual se procurou estabelecer um “corredor ecológico”, mais ou menos largo conforme conforme foi possível ter acesso à propriedade, e com uma extensão que se aproxima já dos 5 km.

É importante recordar que o projecto procura materializar no terreno uma ideia que deveria ter estado sempre presente, sobretudo desde que a ocupação do espaço de montanha foi dominado pelo cultivo do eucalipto: a ideia de que este cultivo é largamente incapaz de proporcionar os serviços dos ecossistemas que são próprios das formações autóctones e mesmo de outras formas de aproveitamento do solo, e que portanto nunca deveria absorver a totalidade ou mesmo quase a totalidade da paisagem. E se não deveria absorver, deviam ter sido criados mecanismos legais e funcionais que permitissem evitar essa absorção.

Mas a referida ideia esteve ausente, sobretudo num período crucial como foi aquele em que o cultivo do eucalipto se implantou, entre as décadas de 50 e 60 do sec. XX, cada ano que passa tornando a sua materialização mais difícil. Basta recordar que o processo de replantação “moderna” de eucaliptais nas áreas declivosas que são próprias das montanhas implica quase sempre a criação de socalcos, um processo de quase impossível reversibilidade, dificilmente compatível com uma dimensão paisagística e eco-centrada. Deste modo, o projecto não apenas procura colocar em prática essa ideia, como o faz muitas vezes “in extremis”, quando parcelas vistas como prioritárias estão para ser replantadas, fá-lo tendo, por um lado, ao nível da sociedade, das pessoas que detêm a posse da terra, de ultrapassar uma força imparável, movida pela miragem do benefício financeiro de curto prazo e uma visão na qual o apreço pela paisagem e pelos seus valores foram largamente erosionados, e por outro lado, ao nível do terreno, quando é finalmente possível chegar até ele, tendo de trabalhar sobre um solo empobrecido por décadas de exploração, desprovido dos seus principais elementos vegetais e animais, e ainda ocupado pelas mastodênticas toiças de eucaliptos explorados ao longo de muitas décadas e da presença, por vezes opressiva e em locais de extrema dificuldade de intervenção, das espécies invasoras.