O eucalipto

Os eucaliptos chegaram a esta paisagem na década de 50, e encontraram todas as condições para se “imporem”: grandes extensões de montanha com escasso aproveitamento e já sem árvores, mas com solo suficientemente apto para o cultivo da espécie; a criação na região de uma primeira empresa de celulose capaz de absorver a produção (a Celulose do Caima, hoje em ruínas); o potencial de rendimento que representava a cultura para comunidades de subsistência no limiar de uma transformação de grandes consequências.

Os primeiros eucaliptos foram plantados à cova, sem mobilização do solo com maquinaria (que ainda não existia) e utilizando o próprio matagal como fertilizante. Eram procedimentos rudimentares, mas mesmo assim o progresso foi rápido: no intervalo de duas décadas quase toda a paisagem tinha sido transformada num imenso eucaliptal. Não obstante o trabalho de colheita ser laborioso, pesado e lento, os rendimentos obtidos eram elevados para comunidades onde o dinheiro era escasso, e o antes desprezado solo de montanha em pouco tempo se tornou mais valorizado que o próprio solo agrícola.

No espaço de uma geração a economia de subsistência sucumbiu, os animais de carga desapareceram da paisagem rural, e o trabalho na terra passou a ser apenas um complemento de um modo de vida mais urbano, com a principal fonte de rendimento a ser o trabalho remunerado nas fábricas e serviços. A relativa proximidade aos centros urbanos e industriais do litoral (começando pelos do próprio Concelho, Águeda), ajudou a limitar o impacto da emigração e da migração para as cidades. Nesse processo muitas terras antes cultivadas foram também plantadas com eucaliptos, fazendo-as parecer muito menos do que realmente eram.

Um aspecto determinante no impacto que os eucaliptos viriam a ter na paisagem foi a ausência de regulação, o que hoje chamaríamos “ordenamento”. O Estado esteve praticamente ausente de um processo de alteração maior da paisagem, e o único condicionamento imposto foi aquele quer era óbvio e necessário: a distância de guarda às terras cultivadas. Mas como estas foram diminuindo de extensão, este “condicionamento” quase não teve relevância na ocupação do espaço. Deste modo, desde os vales até aos cumes das montanhas, todo o espaço foi absorvido pelo eucalipto. O surgimento das máquinas de arrasto facilitou a ocupação de cada recanto, mesmo daqueles de onde seria difícil tirar uma árvore. No entanto as primeiras plantações com mobilização geral do solo faziam-se apenas com ripagens (alfaias de dentes, que cortam o solo sem alterar profundamente a sua estrutura).

Embora tenham sido mínimas as áreas que escaparam ao processo de “eucaliptação”, elas tiveram uma importância de dimensão superior à área que ocupam, porque foi nelas que se “acantonaram” manchas de vegetação espontânea, uma espécie de “micro-reservas” que nos permitem ter uma ideia, ainda que limitada, acerca da composição dos ecossistemas espontâneos da região. Estas áreas foram essencialmente as seguintes:

a) as testadas das terras agrícolas, áreas por vezes de declive elevado, que separavam os eucaliptais das terras cultivadas;

b) as áreas de solo marginal, quase exclusivamente no Cabeço Santo, que não tinham condições para serem aproveitadas;

c) as galerias ripícolas, embora estas tenham sido progressivamente danificadas pelas inavsões biológicas, particularmente com mimosas (Acacia dealbata).

As próprias testadas das terras agrícolas, que durante as primeiras décadas conservaram interessantes manchas de vegetação autóctone, sofreram bastante com a sucessiva ocorrência de incêndios florestais, pois não obstante a sua capacidade de auto-regeneração, os eucaliptos próximos criaram bancos de sementes nestas áreas que, sendo “activadas” pela ocorrência do fogo, germinaram e, sem que ninguém precisasse de intervir, passaram a dominá-las. Assim aconteceu em Belazaima com as testadas das Leiras e da Lavandeira. Foi na Benfeita onde essas testadas chegaram até aos dias de hoje em melhor estado.

Das três áreas referidas, as áreas de solo marginal foram as que chegaram aos nossos dias em melhor estado de conservação, e com maior biodiversidade, embora também estas ameaçadas pelo avanço de uma espécie invasora: a acácia-de-espigas (Acacia longifolia).

Quanto às galerias ripícolas, nas quais podemos incluir também os cursos dos vales mais importantes, elas tornaram-se na mais gritante expressão dos maus tratos a que a paisagem foi sujeita: frequentemente, os eucaliptos foram plantados até às próprias margens, com eliminação activa da vegetação existente, mas mas o pior haveria de vir sem ser necessária muita intervenção humana: os sucessivos incêndios promoveram uma agressiva expansão de espécies exóticas de carácter invasor, sobretudo as mimosas (Acacia dealbata), que acabaram por dar o golpe de misericórdia nos já debilitados e acossados habitats ribeirinhos, ocupando-os com grande densidade e com quase total exclusão das espécies nativas.

Entretanto, nas décadas mais recentes, foram-se alterando as próprias técnicas de instalação (agora quase sempre re-instalação) e condução de eucaliptal, caracterizando-se por:

  • Nos solos em declive se criarem invariavelmente socalcos ao longo das linhas de nível, operação realizada com buldozer e potencialmente de grande impacto na estrutura do solo, na vegetação existente e na paisagem. É de facto uma operação largamente irreversível à escala de muitas gerações. Os socalcos são uma forma de permitir a gestão mecanizada das plantações, e são por vezes apontados como contribuindo para minimizar a erosão do solo e maximizar a infiltração da água da chuva embora, pelo menos a primeira, possa ser comprometida por outras técnicas de gestão. Na prática o impacto – paisagístico e ecológico – pode variar bastante de acordo com o declive dos solos e as suas características: desde quase tolerável a desastroso.
  • A fertilização na plantação (e na exploração) com adubos de síntese, ainda que frequentemente com formulações de “libertação lenta”. Nas zonas – como Belazaima – onde existem aviários de produção intensiva, verifica-se também a deposição, sobretudo em cobertura, de grandes quantidades de estrume sem compostagem, que provavelmente está associado a uma maior acidificação dos solos – já de si ácidos – e possivelmente a lixiviação de nitratos, sem provavelmente contribuir muito para a melhoria dos solos onde são aplicados
  • A utilização, ainda não generalizada, de plantas de eucalipto de origem clonal, mais uniformes e produtivas, mas mais exigentes em fertilização e mais susceptíveis a pragas.
  • O recurso à grade de discos na fase de exploração do eucaliptal, uma técnica só possível com as plantações instaladas em socalcos e que tende a deixar o solo desprovido de vegetação por longos períodos de tempo, favorecendo a erosão e a decomposição da matéria orgânica.
  • Embora ainda não generalizado, tende a aumentar o uso de herbicida sobre o matagal nas plantações. Nas mais “modernas”, já em socalcos, sobretudo nas linhas de plantação, já que nas entrelinhas opera a grade de discos. Nas mais antigas o herbicida pode ser aplicado por toda a área, uma operação menos custosa financeiramente do que a preferível operação de corte com motoroçadora.
  • Mais recentemente, a ocorrência de pragas como o gorgulho do eucalipto está a ser contrariada com a pulverização de insecticidas.

Estas operações e técnicas de intervenção tendem a extremar ainda mais o carácter monocultural das plantações, tornando o eucaliptal uma formação ecologicamente pobre, paisagisticamente monótona e desinteressante, e de sustentabilidade duvidosa.