Ecos do final da Primavera e do início do Verão

No dia 30 de Maio realizámos uma jornada especial nas Bicas de Aguadalte, tendo como principal objectivo cortar a rebentação de eucalipto das toiças ainda aqui presentes. A rebentação estava nesta altura com a altura ideal para ser cortada facilmente. Trata-se de um trabalho que requer muita mão-de-obra e que tem que ser feito várias vezes para se atingir a desvitalização das toiças. Por isso a dimensão do grupo de trabalho faz a diferença. Neste dia não tivemos um grupo muito grande, mas foi o possível… Também se regaram algumas das árvores aí plantadas no Inverno.

O Inverno foi chuvoso mas toda a Primavera teve precipitações abaixo do normal, o que colocava desafios grandes às árvores plantadas de sobrevivência ao Verão que se aproximava. Nesta altura apenas se regaram as árvores da encosta, com menos humidade disponível no solo. A situação ainda não era crítica, mas a Primavera ainda nem tinha terminado…

Vista da área
Detalhe: um medronheiro plantado, rebentação de murta espontânea e lenha de mimosa no chão
Detalhe: rebentação de eucalipto e de um carvalho
Insecto observado: Chrysanthia viridissima, um coleóptero
Vista da encosta com os equipamentos de trabalho
A equipa do dia

No mesmo fim de semana estivemos presentes na Expo-florestal. E levámos a floresta até ao stand!

Equipa no encerramento da Expo

No dia 13 de Junho um grupo de 10 escuteiros de um Agrupamento de Águeda participou numa jornada também especial, na qual se cuidaram e regaram as árvores plantadas no Outono anterior numa encosta junto ao Vale nº 5. As árvores encontravam-se em boas condições, mas os fetos tinham crescido bastante à volta delas e era necessário cortá-los ou arrancá-los. Também foi um momento adequado para remover a rebentação de eucaliptos e plantas invasoras que tinham sido cortadas antes da plantação.

O momento das explicações
Acção: cortar rebentações de plantas de espécies exóticas
Acção: regar (depois de um momento de descanso…)
Fetos cortados ou arrancados em torno de um medronheiro plantado

De facto, o grupo tinha-se dividido em dois: uma parte participou na preparação da área de acampamento junto à aldeia do Feridouro. À tarde estava prevista uma caminhada mas a chegada inesperada da chuva surpreendeu o grupo,  cujas roupas ficaram molhadas o suficiente para o regresso a casa ser a única opção razoável…

Trabalhos no acampamento
Despedida molhada

No dia 20 de Junho a Primavera chegava ao fim e nova jornada nas Bicas de Aguadalte. Apesar de ter chovido uma semana antes, não tinha sido suficiente para uma rega em profundidade das árvores plantadas (tinham sido apenas 4 l/m2), pelo que neste dia se realizou uma rega de praticamente todas elas. Mas não se fez apenas isso, claro: muita vegetação exótica e invasora foi removida, com particular atenção à área do vale, onde se verificou também se as árvores plantadas precisavam de cuidados, normalmente remoção de plantas vigorosas concorrentes. Foi uma jornada já sob um calor anunciador do Estio, que começaria no dia seguinte.

Flor de murta
Equipa desse dia, com participantes de pelo menos dois continentes

Ora, tendo começado o Verão, os calores excessivos não se fizeram esperar muito. Logo no início de Julho anunciava-se um período quente de contornos particularmente agressivos. “Lançado” na madrugada de 2 de Julho com uma assustadora de noite de vendo de leste, durante a qual a temperatura subiu de 20 para 29ºC em duas horas, nesse dia o vento pouco acalmaria e a temperatura chegava quase aos 42ºC (em Belazaima). Foi um dia em que apenas pensar na palavra “fogo” já era perigoso, e quando ele se materializou, na zona de Vouzela, só podia tornar-se tragédia. Numa noite atingiu a cidade de Águeda, e esteve a poucos km do Cabeço Santo, mas felizmente aqui só chegou o fumo, muito fumo que no dia seguinte cobriu quase completamente o sol e fez baixar a temperatura para um máximo de 37ºC. Mas ainda haveriam de vir mais dois dias com temperaturas a rondar os 40ºC.

As temperaturas em Belazaima entre 1 e 5 de Julho e o típico padrão de uma onde de calor, que se inicia na madrugada de 2/7
Na tarde do dia 3 de Julho o fumo do incêndio que se desenvolveu entre Vouzela e Águeda fez o sol parecer uma espécie de lua cheia

Na semana seguinte estava prevista a permanência no acampamento do Feridouro de um grupo de 20 escuteiras belgas, que finalmente só se tornou possível pela descida acentuada das temperaturas. De facto, essa semana (6 a 13) foi fresca, o que permitiu às escuteiras ter uma agradável e produtiva semana de participação nas actividades do projecto.

Apenas as manhãs foram devotadas a trabalho voluntário, entre Quarta e Sábado. Na primeira manhã o grupo deslocou-se até ao Vale da Várzea, em Belazaima, para dar o pontapé de saída na recuperação de uma nova parcela. Os eucaliptos desta parcela tinham sido cortados recentemente e o grupo teve a oportunidade de constatar as “feridas” que essa intervenção causou, e não apenas dentro do terreno: certamente mais por falta de cuidado do que por impossibilidade, muitos eucaliptos caíram para além dos limites da parcela, causando danos em áreas com intervenções de restauro mais antigas. Na própria parcela, com encostas muito declivosas, o alargamento dos caminhos e até a abertura de alguns novos, para permitir o transito das grandes viaturas florestais deixou impactos significativos, mas agora era tempo de observar, e de começar a “curar as feridas”. Os trabalhos consistiram na remoção de rebentação de eucalipto e na arrumação de ramadas que tinham caído em locais mais sensíveis E assim se iniciou a recuperação de uma parcela!

Na encosta adjacente ao Vale da Várzea
Um dos muitos montes de ramada que ficaram depositados fora dos limites da parcela, causando danos a trabalhos anteriores

O segundo dia foi essencialmente de descasque de mimosas, ao longo do trilho que parte do Feridouro e segue ao longo do ribeiro até ao Vale de Barrocas. Os voluntários puderam apreciar os grandes contrastes entre áreas ainda sem intervenção e aquelas onde já se realizou muito trabalho.

Descasque de mimosas
Descasque de mimosas

O terceiro dia foi de subida às Bicas de Aguadalte, onde essencialmente se fez arranque de mimosas e corte de rebentação das toiças, também de mimosa. Os voluntários puderam observar como as mimosas podem crescer com elevadíssimas densidades e rebentar profusamente, sendo todas estas manifestações da sua natureza de fácil controlo mas extremamente mão-de-obra intensivas, devendo ainda as intervenções acontecerem nos momentos mais propícios.

As mimosas podem atingir densidades extremamente elevadas, tanto de origem seminal como radicular
Arrancando mimosas
O interminável trabalho não desanimou as voluntárias
Junto ao Vale de São Francisco

No último dia as voluntárias foram até à Ribeira do Tojo fazer trabalhos de seguimento nas parcelas plantadas em 2024. Aqui o silvado e as mimosas são o principal desafio, mas o primeiro é mais um trabalho de roçadora, e já tinha sido realizado em alguma extensão uns dias antes. As voluntárias fizeram desbaste de mimosas e deram cuidados às árvores. E, é claro, estávamos na Estação da Biodiversidade e uma visita impunha-se.

Assim aconteceu que as escuteiras não apenas realizaram trabalho voluntário como aprenderam algo sobre o estado desta paisagem e sobre e o que é necessário fazer para a recuperar. Na Bélgica será diferente, sem dúvida, mas há algo de fundamentalmente comum nas crises ambientais que, com vestimentas diferentes, se vão manifestando por todo o lado.

Na despedida, já na Estação de comboios de Águeda

E o Julho continuou ameno, alheio aos calores que atingiram boa parte da Europa, só mais um dia chegando a superar, ainda que fugazmente, os 41ºC. Não se realizaram mais jornadas voluntárias, que o tempo convidava ao repouso…

Até agora, Agosto já contou com muitos dias acima de 30ºC, mas só um superou os 40, e foi suficiente… Mas a melhor parte haveria de vir mais para o final. No momento em que estas linhas são escritas, a 27/8, já caíram quase 70 l/m2 de precipitação, o que foi uma excelente forma de compensar uma Primavera que tinha sido seca, e um Verão que, até 24/8, de água só tinha trazido 11 l/m2 no final de Junho, … e neblinas. As árvores plantadas na última época podem respirar de alívio! E até é com mais gosto que iremos ao encontro delas logo no reinício da época voluntária. É já no início de Setembro!

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