Permitam-me, excepcionalmente, fazer algo de que não faço regra neste sítio: escrever na primeira pessoa. Logo perceberão porquê.
Quase 4 anos depois, voltou a acontecer, mas desta vez com gravidade acrescida: intervenções ordenadas pela E-Redes ao longo das linhas de média tensão provocam danos no arvoredo e na paisagem, sem justificação razoável que não seja uma obediência cega a legislação de qualidade mediocre. Porque, note-se, estas intervenções nada têm a ver com a distância da vegetação às linhas nem com a sua operacionalidade. A sua justificação assenta no pressuposto de que o corte integral da vegetação sob as linhas apresenta benefícios em caso de incêndio florestal, pressuposto totalmente erróneo e para além disso de elevados custos a vários níveis.
E argumento que com gravidade acrescida porque, na sequência do ocorrido em 2022, eu, como titular das áreas afectadas, assinei duas declarações em como me responsabilizava por quaisquer danos resultantes de incêndios florestais que tivessem relação com a vegetação existente sob as linhas, desde que esta, naturalmente, se mantivesse a uma distância segura dos fios. Mas de tais declarações fez agora a E-Redes tábua rasa, porque não apenas as intervenções se repetiram como aconteceram ainda com maior agressividade e resultados mais gravosos.
Os factos estão aí e as imagens quase valem por si:
Chousa/Ribeiro de Belazaima: a linha passa aqui a dezenas de metros de altura, devido ao atravessamento do Ribeiro. Ainda assim, toda a vegetação foi cortada, incluido grandes carvalhos que existiam há décadas numa encosta adjacente ao ribeiro. A zona é inacessível a veículos pelo que todo o material lenhoso resultante do corte dessas árvores vai permanecer aí, ao mesmo tempo que silvado e outra vegetação de pequeno porte tenderá a invadir a área. Na margem oposta (pouco visível na foto) o titular dessa área (fora da área de intervenção do Projecto Cabeço Santo) há décadas que aí mantinha um coberto de pinheiros mansos, também numa encosta de elevado declive. Todas essas árvores estão no chão.

Chão do Linho: a árvore mostrada na foto foi cortada e atirada para uma encosta de elevadíssimo declive, causando ainda danos a outra árvore próxima. A proximidade de um caminho permitirá retirá-la, com muito trabalho e esforço.

Chão do Linho: estas árvores de pequeno porte, numa zona muito propensa ao crescimento do silvado foram cortadas e as suas ramadas atiradas para fora da faixa da linha, onde só a proximidade de um caminho permitirá, com bastante trabalho, a sua retirada.


Chão do Linho: Não só os carvalhos, mas também os loureiros, que neste local apresentam sempre pequeno porte, foram dizimados.

Benfeita: neste local apenas uma nesga de terreno, junto ao ribeiro, estaria dentro da faixa alvo (a linha passa do outro lado do ribeiro). Mesmo assim, várias árvores e arbustos foram cortados, tendo todo o material lenhoso sido deixado no local.
Podia continuar com mais “casos” mas basta já. Eles são bem suficientes para que se retirem ilacções:
1) Estas intervenções foram inventadas, não por causa da operacionalidade das linhas mas para criar “faixas secundárias de gestão de combustíveis”. Mas, ao fazê-lo, deixam, nas faixas ou na sua vizinhança, materiais muito mais combustíveis (porque secos) do que antes.
2) Ao retirar vegetação arbórea e arbustiva vai-se promover o crescimento de vegetação densa (silvado, fetos, matagal) e mesmo vegetação invasora, mais propensa à propagação do fogo.
3) São intervenções dispendiosas, no fundo pagas por todos nós.
4) São intervenções que, se realizadas no eucaliptal, até permitem uma quebra positiva da sua monotonia, realizadas em áreas de conservação se tornam profundamente impactantes.
5) São intervenções que, realizadas numa paisagem já dura e profundamente afectada pelas alterações extensivas do coberto vegetal autóctone resultante da exploração florestal de espécies exóticas e afectando de forma significativa as reduzidas áreas de conservação que se tentam implantar, vêm o seu impacto negativo multiplicado.
6) São intervenções realizadas por quem nunca antes aqui esteve, provavelmente nunca voltará e a mando de quem não faz a mais pequena ideia do que está em causa.
E sim, reconheço que o que está em causa não são apenas as árvores mas também as pessoas. Eu, por certo, autor destas linhas, titular das áreas, um dos motores do PCS e admirador das árvores, mas também todos os voluntários que contribuíram durante anos para que elas estivessem lá. Muitas daquelas árvores foram cuidadas, acarinhadas, admiradas, mesmo reverenciadas, durante anos, algumas, décadas (o PCS faz este ano 20 anos, mas não começou do zero), e é penoso (para usar uma palavra suave) chegar lá um dia e encontrá-las cortadas, sobretudo quando se assumia que estavam a salvo. E se tudo isto fosse por uma causa razoável e compreensível, não ficaríamos indiferentes mas talvez apenas resignados. Mas quando é feito apenas porque uns incompetentes de uns governantes assim decidiram, ainda que à revelia de toda a razoabilidade e substância técnica, aí não podemos ficar só pela resignação mas no mínimo a indignação. E não deixa de ser desapontante que esta situação seja já antiga, que os governos se vão sucedendo, e que ninguém, nenhuma associação, nenhuma academia, nenhum movimento da sociedade civil tenha força e determinação para promover a sua alteração.
Pela nossa parte, vamos fazer o que é preciso: vamos recolher “os cacos” e os destroços de mais esta agressão contra a natureza. Recolheremos a lenha (onde tal é possível), recolheremos e trituraremos as ramadas, para que não fiquem no terreno. Sobretudo, recuperaremos as árvores que rebentarem (esperemos que todas) e depois dar-lhes-emos cuidados ao longo dos próximos anos e décadas. E claro, faremos os possíveis e impossíveis com a E-Redes para que estas situações não se voltem a repetir, isto se entretanto nenhum governo for capaz de mudar a situação legal.
Sim, eu sei que há muitas coisas graves a acontecer no mundo, coisas gritantes, que impactam o presente e o futuro de milhões de pessoas, que comprometem os delicados equilíbrios de que depende a vida no planeta, pelo menos tal como a conhecemos. E que, face a essas coisas de dimensão incomensurável, o reportado parece uma insignificância. Mas não esqueçamos que o reportado se multiplica por milhares de quilómetros de linhas por todo o país, e que denota uma forma de estar na vida e na Natureza que é também a causa de muitas tragédias do mundo em que vivemos.
Paulo Domingues, 6/02/26



Boa tarde,
Realmente é revoltante.Já pensaram em comunicar a ocorrência a alguma organização ambiental habituada a colocar o estado em tribunal ou que ajude a legislar. Por exemplo estas associações:
Último Recurso – associação focada em justiça climática e uso do direito para responsabilizar Estado e empresas; está a levar, com outras ONG, o primeiro grande caso de litigância climática em Portugal contra o Estado por incumprimento da Lei de Bases do Clima.
Quercus
Associação Zero
etc
Cumprimentos,
Tânia
Olá Tânia,
Esta situação prolonga-se já por vários anos, tem sido denunciada com alguma frequência e é conhecida de todos. Mas isso não se tem traduzido em capacidade para influenciar decisões por parte dos colectivos existentes. E, dado que o que está em causa é legislação do próprio Estado, este só poderia ser processado por uma instância superior a ele, como um tribunal europeu ou internacional. Eu penso que haveria motivos para isso, porque a legislação em questão carece de fundamentação científica. Mas era preciso que alguém tomasse em mãos um tal processo. E a verdade talvez seja esta: perante ameaças de dimensão descomunal (como a crise climática), esta até parece uma questão menor. E num certo sentido até é: que relevância tem, para a paisagem inteira, uma faixa de terreno de 14 metros de largura desbravada? Quando a paisagem inteira está, ela própria, impactada por acções de outra natureza? Creio que o que marca a diferença é a justificação, a relevância: as intervenções debaixo das linhas são injustificadas e irrelevantes para o objectivo que pretendem atingir. E é isso que as torna tão inaceitáveis.