Primeiro CTV

1º dia, Sexta-feira, 1 de Setembro

Os primeiros participantes chegaram ao longo da manhã de Sexta-feira, 1 de Setembro. Como previsto, procedeu-se à montagem do acampamento e ao reconhecimento das instalações.  No bar do Pavilhão do Centro de Recreio Popular foi instalada uma pequena banca de documentação. Cerca da 1 da tarde o grupo deslocou-se até ao Restaurante Carioquinha para a primeira refeição.

À tarde o grupo (nesta altura com 9 pessoas) deslocou-se até ao Cabeço Santo para o início dos trabalhos. Depois de uma breve explicação dos objectivos do trabalho e identificadas as espécies invasoras, deu-se início ao trabalho. Num primeiro momento arrancaram-se plantas de Hakea sericea (haquea-picante), junto à extrema com a Celbi e mesmo no terreno desta, no extremo nordeste do terreno a adquirir pela Quercus. De recordar que esta planta foi introduzida pela Celbi para demarcar o limite da propriedade. Já antes do fogo formava manchas em alguns locais, espalhando-se pelo eucaliptal. No local de início dos trabalhos constatava-se claramente o seu caracter invasor, verificando-se a ocorrência de grande número de plantas na vizinhança das plantas mãe queimadas. No entanto, mesmo a 50 ou 70 metros da antiga sebe era possível encontrar plantas isoladas de Hakea sericea em germinação. Rapidamente se verificou, contudo, que a maior parte das luvas eram demasiado fracas para os espinhos agressivos desta planta, e passou-se a arrancar Acacia longifolia (acácia-de-folhas-longas), descendo rapidamente em direcção ao vale pelo lado norte do terreno a adquirir pela Quercus.

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Início dos trabalhos mas agora já na Acacia longifolia

Pelo meio da tarde, mais três participantes se juntaram ao grupo, que, para além do número de mãos adicionais trouxeram também algumas ideias quanto à organização do grupo no terreno. Nesta altura já se arrancavam também eucaliptos junto à mancha de eucaliptal existente. Pelo final da tarde o cansaço era já grande, embora se tenha feito uma pausa para o lanche, e o grupo subiu com dificuldade a encosta para voltar à carrinha de transporte.

Antes de partir para a aldeia o grupo teve ainda a honrosa visita dos Senhores Vereadores da CMA Jorge Almeida e João Clemente, acompanhados do Presidente da Junta de Belazaima, Vasco Oliveira, recebendo deles palavras de estímulo e apoio. Seguiu-se o regresso à base, o mais que necessário banho quente nas instalações do CRP e a deslocação até ao restaurante para um merecido jantar. Depois deste houve um encontro informal no bar do pavilhão desportivo, local amavelmente cedido pela Associação folclórica “Os Serranos”. Aliás, alguns participantes puderam assistir a um ensaio desse grupo que se realizou na sala polivalente. Outros ficaram pelo bar, consultaram a documentação, e viram, embora com algumas dificuldades de audição, o filme “The seedball story”. Por fim, os participantes recolheram aos seus aposentos, e, alguns em difíceis condições, procuraram dormir um reparador sono.

2º dia, Sábado, 2 de Setembro

Pela manhã, grupo reuniu-se no Café Carioca para o pequeno almoço. Embora com algum atraso relativamente ao previsto, seguiu-se a viagem para o Cabeço Santo. Desta vez foi necessário fazê-la duas vezes, dado que o número de participantes assim o exigiu. Os trabalhos iniciaram-se mais uma vez na extremidade nordeste do terreno a adquirir pela Quercus mas agora a descida fez-se pela extrema do lado nascente, até ao vale. Começaram por se arrancar acácias e algumas háqueas, e logo muitos eucaliptos, que, apesar de não se encontrarem dentro nem na proximidade imediata de uma mancha plantada, ocorreram abundantemente por germinação de sementes. Um ou dois participantes menos informados ainda chegaram também a arrancar algumas plantas de salsaparrilha-bastarda, que, por ter pequenos espinhos, talvez os tenha levado a pensar tratar-se de uma planta “das más”. Mas não, trata-se de uma trepadeira nativa bastante característica dos medronhais.

Rapidamente o grupo avançou para a mancha de eucaliptal do lado oeste, aí se deparando com uma inesperada densidade de eucaliptos, várias dezenas, às vezes certamente mais de uma centena de eucaliptos de origem seminal por metro quadrado de terreno. De registar que este fenómeno de germinação “explosiva”, que permite atribuir também ao eucalipto a característica de “invasor”, verificou-se quase exclusivamente em solos pouco perturbados, ou seja, não mobilizados, mesmo tratando-se de solos pobres, o que permite concluir sobre o impacto de tais intervenções na faculdade germinativa das sementes. Neste caso, é claro, isso resultou num inconveniente, embora mitigado pela facilidade com que os eucaliptos eram arrancados.

Esta operação fez-se entre os eucaliptos queimados no ano passado ainda em pé, pois que apenas serão cortados em breve, deixando então o terreno completamente livre para a re-colonização com plantas nativas. Os trabalhos da manhã foram concluídos após a chegada da equipa à extrema poente do terreno. Houve então que subir a encosta para o almoço, e, já sob bastante calor, encontrar uma escassa sombra no meio de um eucaliptal vizinho, poupado pelo fogo.

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Vista do terreno que viria a ser adquirido pela Quercus

Após um almoço de sandes e sumos, seguiu-se uma merecida sesta, embora o chão, de pedras remexidas pela mobilização de solo para a plantação dos eucaliptos, dificilmente fizesse lembrar um colchão. Talvez valha a pena aliás reflectir sobre os motivos porque não ardeu este eucaliptal, e um deles é exactamente esse: apesar de ser uma plantação com seis ou sete anos pelo menos, a mobilização de um solo pobre e superficial deixou-o incapaz de ser activamente colonizado por plantas, mesmo as mais aptas a solos pobres como são as plantas do matagal. Só aqui e ali desponta uma. Deste modo, há um elemento de vulnerabilidade ao fogo (o matagal denso) que não existe, mas… a que preço! Outro motivo é que o incêndio de Setembro de 2005 propagou-se essencialmente ao longo das copas dos eucaliptos, o que é atestado pelo facto de terem ardido muitos eucaliptais sem nenhum ou com pouco sub-bosque. Como do lado sul deste eucaliptal (de onde veio o fogo) não havia eucaliptos, aqui o fogo estava já a propagar-se ao nível do matagal, e, como no eucaliptal não havia nenhum, o fogo não chegou a propagar-se às copas, ficando assim a salvo os eucaliptos. A exposição norte desta plantação também terá ajudado.

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Arrancando eucaliptos mas numa zona de densidade mais reduzida
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No meio do eucaliptal a germinação foi mais densa (aqui, plantas já arrancadas)
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Uso possível para os eucaliptos arrancados
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Pequena pausa para registo

Terminado o repouso, o grupo voltou ao trabalho, “atacando” agora os eucaliptos a partir do norte, junto à extrema poente do terreno, descendo assim em direcção ao vale. E assim se passou o resto da tarde, mas, apesar da tenacidade dos braços, foi necessário concluir ainda bem antes de se atingir o vale. É que era necessário regressar cedo devido à programada conferência nocturna. Dado que os participantes não cabiam todos na carrinha, um grupo foi descendo a pé enquanto outro era trazido sobre rodas. E, quando o transporte regressou para os trazer, já não estavam longe da estrada asfaltada. Constou que dissertaram sobre filosofia na descida, não tendo chegado a nenhum consenso sobre o tema em discussão.

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A equipa no final do dia

Depois do banho e do merecido jantar, todo o grupo se aprontou para a conferência marcada para essa noite. O título proposto era “Conservação da natureza e biodiversidade na zona serrana de Águeda”, e para além da comunicação que eu havia preparado, estava prevista outra, sobre invasões biológicas, a ser apresentada pela Hélia Marchante, do projecto Invader. No entanto, já se previa que ela não vinha, porque não tinha respondido às mensagens que lhe tinha endereçado na semana anterior. Mas acrescento que na semana seguinte me respondeu, esclarecendo com grande desgosto seu que tinha estado de férias e que estava convencida que a conferência era uns dias mais tarde. Respondi-lhe dizendo que a receberíamos com todo o gosto e nenhum ressentimento no próximo CTV a realizar em Belazaima. A conferência teve a presença do Senhor Presidente da Câmara, Gil Nadais, do seu vice, Jorge Almeida e ainda um vereador, João Clemente, para além dos dois funcionários municipais que participaram no CTV na Sexta e no Sábado. Pode-se portanto dizer que a Câmara Municipal de Águeda estava representada em peso na conferência. E, há que dizer que mais valor devemos atribuir a essas presenças por elas não corresponderem a convites formais. Não houve convites formais para esta conferência, com o hipotético objectivo de “chamar público” com “nomes de cartaz”. Todas as pessoas que apareceram, fizeram-no porque lhes interessou o tema e o trabalho de campo que lhe está associado, e isso é que é importante. De estranhar, ou talvez nem por isso, foi a ausência dos meios de comunicação escrita concelhios, não só da conferência como de todo o campo de trabalho. Divulgaram como lhes foi pedido, é certo, mas não tomaram a iniciativa de vir ver o que se estava a passar, nem sequer de telefonar. Sinal dos tempos?

Esta conferência coincidiu, infelizmente, com um festival de folclore organizado em Belazaima por um grupo local. Assim, o seu início foi acompanhado por música folclórica em fundo. Na minha apresentação, comecei por lamentar esta coincidência, que se deveu à antecedência com que qualquer destes eventos tinha sido programado. A presença da comunidade local na conferência contabilizava-se em 10 a 15 pessoas, um número evidentemente não compatível com a vontade de empenhar toda a comunidade na ideia de recuperar e conservar o que ainda resta do Cabeço Santo, mas, também ela, essa presença, um sinal dos tempos que correm.

No final da apresentação, que culminou com a defesa da iniciativa de adquirir o terreno no Cabeço Santo pelo Fundo de Conservação da Quercus, o Presidente do Núcleo Regional de Aveiro da Quercus acrescentou elementos relevantes e o Senhor Presidente da Câmara proferiu palavras de apoio ao trabalho realizado. Cabe aqui registar, aliás, que a CMA pagou por completo a alimentação dos participantes neste campo de trabalho. Depois de breves intervenções de alguns presentes, a conferência foi encerrada com um sentimento, creio, de “missão cumprida”.

3º dia, Domingo, 3 de Setembro

A manhã de Domingo foi livre e o grupo só se voltou a reunir para o almoço no Restaurante. Devido ao intenso calor, a tarde ainda se iniciou com uma passagem pelo bar de apoio, no pavilhão, e só depois se deu cumprimento ao programa previsto de visita para a tarde. Fez-se o percurso da beira rio entre os aviários e a ponte nova, tendo-se depois subido ao Valinho-turdo. Depois fomos pela Várzea-de-Além até ao terreno da Varzila, cuja recuperação se iniciou este ano, depois do incêndio do ano passado. À noite houve “sessão de cinema” com o filme “A marcha dos pinguins”.

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Visita ao carvalhal (aqui, Pedreira)
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Visita ao carvalhal (foto de Paulo Almeida)
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Vale da Várzea (nascente) na altura em início de intervenção

4º dia, Segunda-feira, 4 de Setembro

A Segunda-feira previa-se quente e o pequeno-almoço tomou-se mais cedo para aproveitar o tempo mais fresco. Subiu-se a encosta a partir do Feridouro para levar o grupo até um ponto mais próximo do início dos trabalhos, e sobretudo evitar a subida da encosta a pé pelo meio dia. Continuou-se o trabalho de arranque dos eucaliptos em direcção ao vale, sendo que, à medida que nos aproximávamos dele, a densidade de eucaliptos ia aumentando e a sua altura era maior, mas, felizmente, sempre fáceis de arrancar. Já o mesmo não se passava com as mimosas, a maior parte das quais tiveram de ficar para posterior operação.

É de assinalar o notável empenho de um dos participantes, que, tendo inicialmente previsto vir apenas entre Sexta e Sábado, arranjou a sua agenda de maneira a poder voltar na Segunda e Terça. No entanto, tendo-se enganado no caminho e chegado já tarde na manhã de Segunda a Belazaima, fez a pé todo o percurso entre Belazaima e o Cabeço para se juntar ao grupo.

A zona do vale fez-se já por volta do meio dia, quando o calor era já muito intenso. Um grupo mais reduzido ainda iniciou a zona a sul do vale até ao meio-dia e meio, mas depois fez-se a interrupção para o almoço. Como estava muito calor, o grupo deslocou-se até à Redonda e ao Rio Águeda, onde passou as horas mais quentes do dia. Cerca das 16 horas voltou-se ao monte embora alguns elementos ficassem “de baixa” no acampamento. Os trabalhos continuaram na mancha de eucaliptos a sul do vale, subindo agora a encosta sul. Era já noite quando se tiraram as últimas fotografias em torno de um pequeno carvalho antes do regresso a Belazaima. Desta vez o jantar foi mais tarde, no Carioquinha. Mas ainda houve energias para um serão a visionar o documentário “O Endurance”, sobre o malogrado navio que obrigou uma equipa de homens sob o comando de Shackleton a uma heróica e bem sucedida campanha de sobrevivência na Antárctida.

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Uma equipa suja e cansada no final desse dia

5º dia, Terça-feira, 5 de Setembro

Na Terça feira o calor continuava, e o grupo tomou o pequeno almoço às 8 horas para aproveitar o tempo mais fresco. Um novo elemento apareceu contudo para esta última jornada. Os trabalhos continuaram na mancha sul de eucaliptos, continuando-se a subir a encosta. Algum desânimo pareceu em determinado momento atingir um ou outro elemento do grupo, mas a recordação da heróica odisseia do comandante Shackleton e dos seus homens, terá sido suficiente para a debelar.

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Arranque de eucaliptos em zona de medronhal (encosta sul do terreno a adquirir)
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Zona muito intrincada devido aos ramos queimados
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Pode-se constatar como os medronheiros já tinham crescido, quase um ano depois do incêndio
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Voluntária, suja e cansada, mas satisfeita
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Mesma legenda da anterior
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Perspectiva geral do medronhal do Vale de S. Francisco, quase um ano depois do incêndio

Era meio dia e o calor era já muito intenso quando se pôs fim à jornada de trabalhos. Cansados e enegrecidos pelas cinzas, tal como acontecera nos dias anteriores, os elementos deste valoroso grupo prepararam-se para o regresso à aldeia. Banho tomado, reuniram-se no Carioquinha para o almoço de despedida. Inicialmente não estava previsto ser assim, pois que se previa almoçar no campo e trabalhar até meio da tarde. Mas, dada a onda de calor que se verificava, alterou-se deste modo. A seguir ao almoço o grupo desmontou o acampamento, cada um arrumou as suas coisas e todos regressaram às suas terras.

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Nem parecem os mesmos… mas eram!

Conclusão

O balanço final deste Campo de Trabalho não pode ser senão muito positivo, em primeiro lugar pelo empenhamento e generosidade de todos os elementos que nele participaram. O trabalho acabou por se concentrar muito mais nos eucaliptos de origem seminal do que nas acácias, dada a necessidade de os remover antes do corte das árvores queimadas, e praticamente não se saiu do terreno a adquirir pela Quercus, apesar da permissão para realizar trabalho na propriedade da Celbi.

Isso mostra como é gigantesco o esforço necessário para recuperar uma extensão significativa de terreno, e como só é possível fazê-lo quando um número elevado de pessoas o fizer por um forte sentimento (amor?) que as ligue à terra que pisam. Recuperar certas áreas de terreno é como restaurar um quadro danificado. Requer paciência, dedicação, investimento de um esforço cujos resultados só aparecem mais tarde. Não é possível fazê-lo de forma continuada e consistente por uma qualquer motivação superficial ou por um interesse calculista.

No documentário sobre o Endurance aprendemos que o difícil não era vencer o gelo. O difícil era manter a motivação, a união e a determinação dos homens perante a adversidade. Também não é difícil eliminar as plantas invasoras, e, pelo menos, restaurar certas condições que permitam à vida espontânea recuperar toda a sua diversidade e beleza. O difícil é criar no coração de cada homem e de cada mulher a vontade, a determinação e a persistência para o fazer.

Paulo Henrique Grilo Domingues, Setembro de 2006