O trabalho de restauro

Quase todo o trabalho associado ao restauro ecológico e paisagístico das áreas alvo é difícil, custoso e demorado.

A exclusão do eucaliptal

Em extensão, as principais áreas de trabalho dos últimos anos são eucaliptais, sendo naturalmente o objectivo a sua reconversão para formações de espécies nativas. Mas o eucaliptal é “aguerrido”: cortadas as árvores, as toiças rebentam profusamente. Para as “demover”, as operações “suaves” são exigentes em mão de obra e demoradas nos seus efeitos (corte repetido da rebentação com machados), as impactantes ou são inexequíveis (giratória com enxó, que só consegue operar em terrenos sem demasiado declive), ou têm efeitos secundários pouco apetecíveis (aplicação de herbicida na rebentação).

Uma vez desvitalizadas as toiças, elas continuarão no terreno por muitos anos, bem como as suas raízes, que se irão decompondo lentamente. Por isso, qualquer trabalho de introdução de plantas tem de contar com a presença dessas, por vezes mastodônticas, estruturas.

A recuperação de plantas de espécies autóctones

Por vezes, sobretudo em áreas onde o eucaliptal é mais antigo ou nunca foi explorado com muita intensidade, encontram-se plantas ou formações de plantas autóctones, frequentemente em más condições, mas que, devidamente ajudadas, podem ser recuperadas. A par com a remoção dos eucaliptos, e, eventualmente, das invasoras, a selecção de rebentos, a desramação e o controle do matagal ajudam essas plantas a desenvolverem-se, e, como já têm sistemas radiculares bem estabelecidos, a crescerem mais rapidamente do que aconteceria com plantas introduzidas por plantação ou sementeira.

A introdução de plantas de espécies autóctones

Fazer uma cova de plantação em eucaliptal anterior é um trabalho difícil, exigente e sempre insuficiente para proporcionar o melhor crescimento possível às plantas. Consequentemente elas vão crescer lentamente, ultrapassadas nos primeiros anos por um matagal espontâneo que beneficia de estar já bem ancorado no solo, ter toda a luz para ele, e nenhuma concorrência dos eucaliptos que entretanto saíram de cena. Ele está também bem adaptado a um solo pobre e ácido, condições possivelmente agravadas pela presença dos eucaliptos durante algumas décadas. De facto, na plantação de árvores nestas condições, seria muito positivo e facilitador poder contar com a preparação mecânica das covas de plantação, mas em terrenos de elevado declive isso não é possível com as máquinas em geral disponíveis. Só uma máquina de preço elevado e disponibilidade limitadíssima seria de ajuda neste contexto: a retro-aranha. Por isso, nestas áreas se aposta na sementeira, sobretudo de bolotas e castanhas, em complemento à plantação. Mas a sementeira de bolotas só é viável em anos de produção elevada, e mesmo assim a taxa de sucesso é reduzida.

Como não têm fertilização, as árvores de origem seminal crescem normalmente mais lentamente do que as plantadas, mas são mais robustas, suportando melhor as condições de stress durante o primeiro ano, sobretudo se o Verão for difícil. Para as ajudar, faz-se por vezes uma fertilização de cobertura às melhores.

As pequenas árvores, sobretudo das plantadas, não podem ser abandonadas após a plantação. A fertilização, se as ajuda a crescer, também alimenta as plantas oportunistas, por vezes de enraizamento vigoroso, que é necessário retirar antes que desestabilizem o frágil torrão. Um material de cobertura é interessante, mas de aplicação trabalhosa e difícil; só ocasionalmente se utiliza. Pelo menos uma rega, sobretudo se o Verão for mais quente e seco do que a média, é importante para minimizar as perdas. No segundo ano ainda é conveniente uma sacha, e nos anos seguintes fazem-se desramações e, se o matagal se aproximar demasiado, tem que ser triturado com motoroçadora num certo raio em redor.

Nas mais férteis e frescas terras dos vales as árvores crescem mais rapidamente do que nas encostas, mas por outro lado o silvado e os fetos crescem vertiginosamente entre a Primavera e o Verão, e nos primeiros 5 a 10 anos é necessário mais do que um corte por ano, mesmo três nos primeiros anos.

Apesar de todos estes trabalhos, tudo seria muito mais simples se não existissem as espécies invasoras, que apesar de ocuparem apenas uma fracção da área de intervenção, exigem um esforço proporcionalmente muito superior.

As invasoras

A mimosa

As mimosas estão sobretudo (mas não exclusivamente) ao longo do corredor ribeirinho e dos principais vales. Geram formações de elevada densidade de plantas que frequentemente pouco se rarificam à medida que as árvores vão crescendo. Ocupam mesmo escarpas onde o solo é escasso e, em todo o lado, crecem vertiginosamente, cedo começando a produzir milhares de sementes. A maior parte destas sementes não germina e fica latente no solo, à espera que alguma perturbação as active. A mais conhecida destas perturbações é o fogo, mas pode ser simplesmente a remoção de árvores grandes, sendo qualquer mobilização do solo também um factor activador. Quando acontece, a germinação acontece às centenas por metro quadrado. Isto significa que uma operação de intervenção visando melhorar pode acabar por piorar, se não houver um acompanhamento ao longo do tempo.

Várias são as técnicas que podem ser utilizadas para “atacar” o probelma das mimosas, nenhuma perfeita, nenhuma aplicável em todas as circunstâncias. Quando se parte de manchas densas de árvores não muito grandes (por exemplo, resultantes de um incêndio nos últimos 5 anos), não há muitas alternativas a cortes rasos com motosserras, seguindo-se uma pulverização com herbicida da rebentação subsequente, algumas semanas ou poucos meses depois. Mas a orografia do terreno, a proximidade de água corrente e a presença de plantas a poupar podem desaconselhar esta operação que, é claro, mesmo nas melhores condições nunca é isenta de impactos.

Se a densidade da ocupação não for excessiva, pode-se pensar no corte com aplicação de herbicida na superfície do corte, operação que perde eficácia quanto maiores forem as árvores porque tendem a rebentar ao longo da sua extensa rede de raízes. A partir de certo porte e se a densidade não for excessiva, o descasque é uma solução acessível mesmo a voluntários. Embora com uma taxa de sucesso inferior a 100%, tem boa eficácia e evita o problema da gestão no solo de árvores caídas, que pode ser limitante em encostas declivosas. A árvore, claro, acabará por cair, mas gradualmente (primeiro as folhas, depois os ramos finos, finalmente, ao fm de anos, o tronco).

Mais recentemente, tem-se ensaiado uma abordagem sem uso de herbicida, para áreas com uma ocupação de densidade média e plantas também de médio porte: fazer uma redução de densidade por corte de parte das árvores, mas deixar parte delas para garantir um certo ensombramento e uso de sistemas radiculares que, com corte total, tenderiam a um rebentamento abundante e vigoroso. Rebentamentos mais débeis não precisam de tanto esforço e atenção para serem cortados, mas têm de sê-lo até “desistirem” , e, quando isso acontecer, talvez anos depois, podem então descascar-se as árvores restantes. Esta abordagem está ainda em avaliação e não deve ser considerada consolidada, mas sobre ela iremos trazendo avaliações.

A acácia-de-espigas

Embora territorialmente mais circunscrita, a acácia-de-espigas (Acacia longifolia) tem forte presença nas zonas de cabeceira, em particular nas áreas não sujeitas a exploração de eucalipto, embora também seja uma problema nestas. Muito reactiva à passagem de um incêndio – neste aspecto comparável à mimosa – as suas plantas podem germinar às centenas por metro quadrado. Nos primeiros um a dois anos arrancam-se bem, embora à custa de muita mão-de-obra, mas nos seguintes, sobretudo se ancorarem as suas raízes na superficial rocha de xisto, tornam-se muito difíceis de arrancar. Nesse, caso, a solução passa a ser o corte.

A acácia-de-espigas não rebenta tão profusamente como a mimosa, e por outro lado, não responde tão bem à aplicação de herbicida (pelo menos ao glifosato), pelo que esta não é uma solução habitual. Mas, para a rebentação ser reduzida, é preciso cortá-la o mais perto possível do solo, o que nem sempre é possível.

Em 2010 uma área extensa foi trabalhada com uma grade de discos pesada, que amassou e enterrou uma massa densa e impenetrável de plantas desta espécie, mas isso só foi possível por se tratar de uma área de cabeceira, já pouco declivosa. E mesmo assim ainda foi necessário muito trabalho de seguimento (arranque e corte) para não deixar as coisas recuar.

Nas áreas de declive elevado, e, por se tratar de zonas não exploradas, onde a vegetação exótica está misturada com muitas autóctones, o trabalho manual com muito seguimento é a única solução viável, não obstante as grandes exigências em mão-de-obra e portanto em custos, se esta tiver de ser profissional. Na prática, uma boa solução é uma intervenção inicial profissional com seguimento por voluntários, embora o acesso difícil de algumas áreas seja um factor limitante.

Outras invasoras

Outras invasoras lenhosas presentes na área de intervenção são a Haquea sericea (háquea-picante) e a Acacia melanoxylon. Pontualmente ocorrem o penacho (Cortaderia selloana) e a herbácea erva-da-fortuna (Tradescantia fluminensis).

A háquea-picante tem espinhos muito agressivos e foi plantada pelos primeiros titulares da Mata do Cabeço Santo ao longo das extremas da propriedade (como barreira). No entanto, a planta reage de forma reactiva ao fogo, fazendo “explodir” as suas pinhas secas e provocando a disseminação de sementes que vão germinar por vezes a dezenas de metros das plantas mãe. A planta pode gerar matas muito densas e impenetráveis, mas responde bem ao corte. Na zona da Ribeira do Tojo existia uma mancha significativa que foi resolvida por corte das plantas adultas e acompanhamento da germinação (arranque das plantas pequenas).

A Acacia melanoxylon é comparativamente menos abundante (existe uma mancha na Benfeita/Vale da Estrela e outra na Fonte do Porco). Ao contrário da mimosa, não é “descascável” e rebenta vigorosamente após o corte. Responde moderadamente à aplicação de herbicida na superfície de corte. Se não for aplicado, é necessário cortar repetidamente a rebentação…

O penacho ocorre apenas muito pontualmente. Há que o manter vigiado.

A erva-da-fortuna ocorre em manchas densas em zonas frescas e sombreadas. Não tem uma distribuição preocupante e não tem sido uma planta alvo de trabalhos.