Principais desafios

Acesso à terra

Numa região onde a propriedade privada absorveu totalmente a paisagem local e se fragmenta em centenas ou milhares de parcelas, intervir à escala da paisagem (e não apenas em parcelas isoladas) é um verdadeiro desafio. Acresce o financeiramente atractivo usufruto dessa paisagem, que dificulta qualquer transação e o facto de, quando tal chega a ser possível, sê-lo por elevado preço.

No caso do Cabeço Santo esse desafio foi e continua a ser real, mas foi mitigado por dois factores principais:

1) Não obstante a pequena propriedade ser a regra, existe uma propriedade de uns 550 ha, detida hoje pela empresa Altri Florestal (a origem desta propriedade está explicada aqui). A empresa explora a cultura florestal dominante na região, o eucalipto, mas houve dois factores que facilitaram a cedência de área dentro dessa propriedade: a) há um número elevado de ha de solos marginais para o cultivo do eucalipto; b) a certificação florestal incentivou a empresa a ceder algumas áreas de solo não marginal, particularmente as inseridas nos corredores ecológicos (ribeiro e principais vales). Estes dois factos associados à dimensão da propriedade permitiram a integração na área de intervenção do projecto de várias dezenas de ha com relevância à escala da paisagem.

2) Condições excepcionais tornaram possível à Quinta das Tílias proporcionar ao projecto áreas complementares às da Mata da Altri Florestal, que permitiram “desenhar” uma área de intervenção com uma certa coerência à escala da paisagem, isto é, com bastante continuidade, incluindo corredores ecológicos ao longo das áreas potencialmente mais biodiversas (linhas de água) e contendo vários habitats: rupícola, ripícola, carvalhais, medronhais e matagais, para além de zonas cultivadas.

Adicione-se a estes factores muita paciência e persuasão , os que foram necessários para negociar muitas parcelas pequenas, em particular as que viriam a ser adquiridas pela Associação Cabeço Santo em 2024.

Ainda em 2026 o aumento da área de intervenção continua: estão em fase de aquisição duas parcelas, num total de 5 ha, nas Bicas de Aguadalte. Mas para isso ser possível um conjunto de esforços, financeiros e outros, têm de convergir…

Mercê, em boa medida, de condições que seriam difíceis de replicar noutros lugares, foi atingida em 2026 a área de intervenção de 135 ha. Mas a paisagem, mesmo à escala local, precisaria de muito mais…

Financiamento

O financiamento não é preciso apenas para adquirir a propriedade, Se conseguimos adquirir a propriedade mas não tivermos capacidade para intervir, não atingimos os objectivos. Assim acabou por acontecer em muitos dos ha na Mata da Altri Florestal: passaram-se anos sem capacidade para intervir e há situações de regressão. Estamos aqui a falar, naturalmente, de trabalhos profissionais, que são os que requerem maiores recursos financeiros.

Os recursos financeiros podem vir de:

a) Titulares de propriedade, na medida dos benefícios de que possam usufruir com a posse da terra, se algum, ou dos fundos que consigam angariar.

b) Candidaturas a potenciais fontes de financiamento promovidas pela Associação ou pelos titulares de propriedade

c) Donativos, particulares e institucionais

d) Remuneração dos serviços dos ecossistemas

Apesar de todas estas fontes terem dado algum resultado, algumas revelam-se abaixo das expectativas, como as candidaturas a fundos e projectos: são imensamente trabalhosas e os resultados frequentemente decepcionantes. Apenas um exemplo: há alguns anos tivemos uma candidatura ao Fundo Ambiental, com uma verba de 50 000 Euros, formalmente submetida pela Câmara Municipal de Águeda, aprovada. Nunca chegou ao terreno. Justificação: a necessária contratação pública não teve propostas.

Execução eficiente e frutuosa, técnicas adequadas, persistência

Pode haver dinheiro e investimento e os resultados serem decepcionantes. A execução dos trabalhos tem de ser acompanhada e orientada para que se atinjam resultados duradoiros. Um dos problemas das intervenções de 2008/9 foi que abrangeram áreas grandes, que depois houve dificuldade em acompanhar. O trabalho com as invasoras tem essa condicionante: não basta uma intervenção inicial, e mesmo esta tem de ser bem pensada. Se não houver acompanhamento nos anos seguintes, a situação regride rapidamente.

Orografia

A orografia e as dificuldades de acesso complicam tudo: é muitas vezes mais difícil e custoso recuperar uma certa área em ambiente de montanha do que a mesma área em planície ou relevo suave. Há maquinaria que não trabalha em terreno declivoso, logo o trabalho tem que ser manual, mesmo quando maquinaria pesada poderia ser de grande ajuda. O caso mais típico é o da preparação de solo para reconversão de eucaliptal: se uma máquina não pode entrar para partir ou arrancar as toiças, e para soltar o solo, é muito mais difícil plantar árvores e fazê-las vingar. Mas também o controlo de invasoras em áreas de elevado declive é um desafio, desde a movimentação dos operadores à gestão dos materiais lenhosos.

Risco de incêndio

O risco de incêndio está sempre presente e não há muito que possamos fazer para o evitar. O projecto iniciou-se como consequência de um incêndio e, pelo menos uma vez, em 2017, viu-se afectado pela sua ocorrência. É verdade que, em alguma medida, o trabalho de restauro ecológico cria paisagens mais resilientes ao fogo. Mas, só em condições favoráveis isso se consegue no médio prazo, e o agravamento das condições climáticas pode piorar a situação. Quando, em Abril de 2017, ocorreu um incêndio, ele deteve-se na zona ribeirinha da Ribeira do Tojo onde o carvalhal era recuperado desde 2009, mas se se tratasse de uma encosta, isso já não teria acontecido, como efectivamente não aconteceu: isto porque só formações de folhosas muito maduras conseguem “controlar” suficientemente a vegetação de pequeno porte do sub-bosque – matagal, fetos, silvado – e nas encostas isso demora muitos anos, ou décadas, a acontecer. Claro que a vegetação densa, de pequeno porte, pode e deve ser gerida, até para promover o crescimento das árvores, mas isso tem custos elevados, porque é um trabalho de máquina manual – motoroçadora. Assim, se há zonas onde, num período de tempo razoável, é possível criar as condições para uma razoável capacidade da vegetação “fazer frente” ao progresso de um incêndio, particularmente as zonas ribeirinhas ou em solos de fertilidade elevada, noutras isso não é possível. Claro que a paisagem natural tem uma capacidade inata de recuperar no pós-fogo: vimos isso bem no Cabeço Santo em 2006. Quase todas as plantas autóctones rebentam após combustão da parte aérea e outras germinam. Mas o estado actual de fragilidade da paisagem dificulta esse processo e a rebentação das árvores, se não for seguida nos anos seguintes de trabalhos de selecção de rebentos, resulta em árvores de formato arbustivo.

Voluntariado

O voluntariado foi um recurso estimulado desde o início do projecto. Os voluntários não podem fazer tudo o que é necessário, mas podem dar um bom contributo. E são uma forma de envolver a cidadania num esforço de que a sociedade também beneficia. Durante quase 20 anos se realizaram jornadas de voluntariado ao Sábado, com uma periodicidade quase quinzenal. Mas depois da pandemia essa dinâmica tem vindo a esmorecer. Pela primeira vez, em 2025, houve vários meses sem jornadas, ainda que algumas não por falta de voluntários.

Há alternativas ao apelo à participação dos cidadãos individuais. Podem-se promover participações colectivas de empresas. Nos últimos anos aconteceu a participação no Programa de Voluntariado Jovem para a Natureza e Florestas do IPDJ. E aconteceu o Corpo Europeu de Solidariedade. Mas estas iniciativas estiveram circunscritas no tempo, no caso do CES tiveram custos financeiros muito para além do retorno que geraram, e voluntários movidos por outros atractivos, como os do IPDJ, nem sempre têm a motivação e o compromisso necessários. Há também os escuteiros, que nunca tiveram uma participação relevante, embora haja agora umas expectativas positivas de que venham a ter.

A participação cidadã enferma, no fundo, de dolências que são estruturais e civilizacionais: a alienação da natureza, a coisificação da natureza, o egocentrismo exacerbado, o consumismo, a superficialidade são consequências de uma evolução da cultura ocidental dos últimos séculos que a trouxe à beira do abismo, mas com uma inércia tal que a torna difícil de se corrigir antes que arrisque uma queda de proporções inimagináveis. Temos poucos voluntários porque há poucas pessoas verdadeiramente conscientes destes desafios, que são tanto externos (sociedade, economia, natureza) como internos (psicológicos). Em última instância talvez só sejamos capazes de sarar o externo (natureza, sociedade) se formos capazes de sarar o interno (mente, psique), só se apaziguarmos e transmutarmos os nossos demónios interiores teremos esperança de resolver os exteriores: guerra, antipatia, destruição da natureza, e finalmente destruição de nós próprios.