História

Antecedentes

O impulsionador original do projecto, membro da Associação Quercus quase desde o seu início, inspirado pelo que foi vendo e ouvindo pela pertença a essa Associação, decidiu em 1990 por mãos à obra: começou a trabalhar na reconversão de uma antiga terra de cultivo do património familiar com eucaliptal já há muito tempo, na zona da Pedreira, em Belazaima. A terra não tinha mais de 1000 metros quadrados, era estreita e comprida e estava rodeada de eucaliptais por todos os lados, excepto por um, um vizinho que detinha a parcela ribeirinha (ribeiro de Belazaima) e que tinha tido a feliz ideia de aí plantar “outras” árvores: castanheiros, e ciprestes, sobretudo. Esse vizinho foi o primeiro alvo de um processo que foi paralelo ao da intervenção e que era essencial numa região de propriedade dispersa e de pequena dimensão: o emparcelamento.

O progresso dos trabalhos foi muito lento nos primeiros anos porque nessas terras férteis o silvado crescia ainda mais depressa do que os eucaliptos e as ferramentas utilizadas eram rudimentares: a roçadora ainda não tinha motorização! Por outro lado havia já alguns carvalhos com 10 ou 20 anos de vida: eram sobretudo os que tinham nascido nas muitas linhas de extrema das parcelas e que nenhum dos proprietários vizinhos achava que tinha o direito de cortar. No entanto muitos desses carvalhos sofriam fortemente quando o eucaliptal era cortado, porque como estendiam os seus ramos laterais para dentro do eucaliptal, a queda das árvores na fase do corte danificava-as fortemente.

Sempre pouco a pouco, nos 15 anos seguintes o trabalho e o emparcelamento foram prosseguindo, agora em três áreas não muito distantes umas das outras: na Pedreira, a primeira, na Ponte Nova, a jusante, e no Valinho Turdo, mais longe do ribeiro. Em 2005 cada uma dessas três áreas só tinha uma parcela a dividi-la das outras e a operação “final” de emparcelamento foi tentada mas revelou-se uma “missão impossível”. Porque o emparcelamento, dependendo de terceiros, é sempre um caminho incerto. Parecia que não era possível sair dali. Então, houve o incêndio no Cabeço Santo…

Carvalhal da Ponte Nova, quase 30 anos depois

O Incêndio de 2005

O incêndio de 18 de Setembro de 2005 foi um evento traumático, que ficou marcado na
memória local, mesmo sendo o fogo um fenómeno relativamente frequente na região.
O Verão de 2005 tinha sido muito quente, seco e longo, e embora estivesse no final, assim não parecia. A noite de 17 para 18 de Setembro foi uma daquelas sinistras noites de vento de leste em que os três “feiticeiros” se unem para trazer maus augúrios: os “feiticeiros” da temperatura, do vento e da humidade relativa.

Os temidos eventos de vento leste estão associados ao deslocamento do anticiclone dos Açores para o norte da Europa, mais precisamente o Canal da Mancha, e podem significar, no litoral de Portugal, uma subida de temperatura, tanto da máxima como da mínima de 10 a 15 ºC em relação aos valores mais habituais. É então que as típicas máximas de 28ºC podem subir aos 40 ou mais e as típicas mínimas de 12ºC podem de repente transformar as noites frescas em “noites tropicais” nas quais as mínimas podem chegar aos 27ºC. Paralelamente a humidade relativa cai em correspondência, não apenas por efeito das temperaturas, mas também por o ar marítimo ser substituído por ar continental. Quando, numa noite “normal”, a humidade relativa máxima no litoral ronda sempre os 100%, durante esses episódios pode ser tão baixa como 30%. Finalmente o vento, o mais “traiçoeiro” dos três “feiticeiros”: nestas condições os dias costumam ser calmos, com vento fraco, mas quando se criam condições propícias, já bem depois de o sol se pôr, porventura depois da meia noite, levanta-se um vento que pode ser apenas moderado mas que soa a forte, tirando coisas, normalmente metálicas, do seu lugar, com ruídos estridentes, fazendo abanar janelas que com outros ventos permanecem silenciosas e encontrando sempre maneira de assobiar, desafiador, nalgum beiral. Quem já dormia, acorda sobressaltado para não mais conseguir adormecer, pois tal vento só acalma depois do nascer do sol. E não apenas pelos ruídos mas pela memória.

Foi assim a noite de 17 para 18 de Setembro de 2015. Então juntou-se um quarto “feiticeiro”: ofogo, lançado em Linhar de Pala, no Concelho de Mortágua, pelas 23 h de 17. Os dados estavam lançados. Naquelas condições a progressão do fogo é rapidissima, qualquer tentativa de o combater inútil e perigosa, e ele “engole” em poucas horas, paisagens inteiras. O matagal é o seu alimento primeiro, mas nas consideradas condições meteorológicas, inflama violentamente as copas dos eucaliptos, que ardem vigorosamente, lançando para o espaço as suas folhas incandescentes, que, com a ajuda do vento e das fortes correntes convectivas locais as fazem cair às vezes centenas de metros mais para longe, ainda incandescentes e desencadeando novos focos de incêndio. Isso faz propagar o fogo ainda com mais velocidade.

Foi assim que, nas poucas horas dessa noite alucinante, arderam milhares de hectares em três Concelhos, arderam aldeias e terras de cultura e o fogo só foi parado de manhã, quando o vento acalmou. O Cabeço Santo e toda a mancha florestal a nascente e sul de Belazaima estavam fumegantes e um silêncio sepulcral se abatia sobre a paisagem. Quase três semanas depois ainda era frequente encontrarem-se focos de fumo, e a chuva tardava em chegar. Mas, nas áreas marginais do Cabeço Santo, houve quem não esperasse por ela: as campainhas-de-Outono, pequena planta de cor branca que surge normalmente com as primeiras chuvas de Outono, romperam as cinzas e floresceram. Foram as mensageiras da esperança. E não estavam sozinhas. A propósito, foi escrito este artigo, proposto para publicação num jornal local, mas que não deve ter sido considerado “de interesse”.

Montanhas a sul de Belazaima na tarde de 18 de Setembro. Por curiosidade, a parcela cortada à direita, no Vale da Várzea (poente), viria, 12 anos depois, a ser integrada na área de intervenção do projecto
Uma perspectiva do Cabeço Santo, a 7 de Outubro
Medronhal do Cabeço Santo (Vale de S. Francisco) a 7 de Outubro
Em alguns locais as correntes convectivas foram tão fortes que partiram as árvores. Aqui mimosas.
Um medronheiro queimado. Mas, abaixo da superfície do solo, preparava-se já para rebentar
campainha de outono
Campainha-de-Outono, uma mensageira da esperança, fotografada no Cabeço Santo a 7 de Outubro de 2005

Mas houve mais factos notáveis: algumas centenas de metros a montante do Feridouro, em
torno do ribeiro, tinha-se instalado espontaneamente uma pequena mancha de carvalhos, em pequenas parcelas antes cultivadas. Essa mancha, não obstante estar completamente cercada por eucaliptos e ser de muito pequena dimensão, permaneceu verde no meio das cinzas: outro sinal de esperança.

A mancha de Carvalhos de Vale de Barrocas, fotografada em Junho de 2006 do caminho entre o Feridouro
e a mata do Cabeço Santo, quando o eucaliptal à sua volta rebentava já

Esta mancha de carvalhos em poucos anos ficou de novo escondida com o eucaliptal, para só “reaparecer” aos olhos de quem passa no caminho entre o Feridouro e a mata do Cabeço Santo em 2014, quando o eucaliptal entre o caminho e o ribeiro foi de novo cortado. Mas desta vez seria para não ficar escondida de novo.

Pós-incêndio

Foi necessário esperar pela Primavera do ano seguinte para se assistirem a mudanças
significativas na paisagem. Os eucaliptos, é claro, rebentaram, embora a grande área ardida
tivesse atrasado os cortes de madeira queimada, por vezes até 2007. Um fenómeno
particularmente intenso foi a germinação de eucaliptos de origem seminal: ocorrida sobretudo em solos pouco mobilizados e onde havia banco de sementes, as plantas de origem seminal apareceram por vezes às muitas dezenas por metro quadrado. No Cabeço Santo espalharam-se, como manchas de óleo, pelas áreas de medronhal. Mas aqui, nas áreas não exploradas, o que se previa começou logo a mostrar-se: o banco de sementes da acácia-de-espigas germinou massivamente, juntando-se à rebentação das plantas instaladas. Nos vales, onde a mimosa já estava bem presente antes do incêndio, pareceu num primeiro momento que outras plantas de ciclo mais curto tomavam a dianteira, mas o avanço da estação de crescimento veio confirmar as piores expectativas: as mimosas regressavam ainda com mais força, ocupando ainda com mais agressividade espaços que já eram largamente delas.

Germinação de acácia-de-espigas, na vizinhança de uma planta-mãe. Cabeço Santo, Junho de 2006
Vale de São Francisco visto cá e baixo, do Feridouro, em Junho de 2006. A pequena área à esquerda tinha
sido mobilizada para replantação. 10 anos depois pôde ser incluída na área de intervenção do projecto
Os eucaliptos de origem seminal ocorreram, por vezes, massivamente
Na primavera de 2006 as mimosas mostraram que estavam para ficar, e ainda com mais força

Pelo lado positivo, houve áreas nas manchas de vegetação espontânea do Cabeço Santo onde a Primavera deu origem a ricas formações de plantas espontâneas pioneiras, só as hastes queimadas das plantas arbustivas de porte baixo mostrando que ali tinha passado um incêndio. A vegetação rupícola, pelo seu lado, estava praticamente recuperada no ano seguinte. No coração da maior área rupícola do Cabeço Santo, na cabeceira do vale nº 2, existia um sobreiro, que ia crescendo lentamente ano após ano. Foi a única árvore daquela zona que rebentou a partir da parte área, recuperando-a totalmente ao fim de poucos anos. Essa árvore ainda pode ser aí observada hoje.

Recuperação da vegetação herbácea, na Primavera de 2006
Um medronheiro rebenta profusamente em Junho de 2006
Em 2006, só os troncos queimados permitiam perceber que tinha passado por aqui um incêndio
Esta imagem, obtida já em Junho de 2007, é um exemplo dos processos de sucessão e regeneração.

Estado da paisagem no pós-fogo e razões para um projecto

Depois do incêndio de 2005, o estado da paisagem local, se já não era brilhante antes, só podiapiorar depois. Com a expansão das mimosas, das acácias de espigas, mesmo das háqueas picantes, originalmente plantadas nos limites da mata do Cabeço Santo, e ainda dos eucaliptos, as escassas áreas onde ainda se fixava alguma vegetação espontânea viram-se ainda mais pressionadas. Nas áreas não exploradas do Cabeço Santo, sobretudo pelas acácias-de-espigas, mas também pelas háqueas e pelos eucaliptos. Nas testadas das terras agrícolas, sobretudo pelos eucaliptos. Nas margens do ribeiro e ao longo dos principais vales, sobretudo por mimosas.

Muitos proprietários aproveitaram para replantar com eucaliptos, o mesmo vindo a acontecer na mata do Cabeço Santo. Este estado da paisagem foi a semente do projecto. Não era possível ficar indiferente. Era quase irrelevante continuar a trabalhar à escala anterior. A acção que parecia mais premente levar a cabo era a salvaguarda das áreas não exploradas do Cabeço Santo, distribuídas por núcleos mais ou menos separados e coincidentes com as cotas mais elevadas dos principais vales que rompiam a encosta até ao ribeiro. A principal encontrava-se no Vale de São Francisco, o principal vale que serve a pequena aldeia do Feridouro, mas praticamente todos eles, do nº 1 ao nº 7, tinham a “sua” área não cultivada, de solo marginal e frequentemente com afloramentos rochosos. E em todas elas, a presença da Acacia longifolia, e por vezes da Acacia dealbata, era ameaçadora.