A visita e a última jornada de Primavera

No dia 27 de Maio realizou-se a visita anual à área de intervenção do projecto, com o tradicional percurso circular passando pelas cotas mais elevadas do Cabeço Santo e pela zona ribeirinha. Este ano com uma paisagem que reflectia bem a secura dos últimos dois meses, bem diferente do que estávamos habituados em Maio.

Pela positiva constatámos que as acácias-de-espigas estavam tão afectadas por galhas (de Trichilogaster acacialogifoliae) que muitas plantas até vergavam sobre o peso das galhas. Sem dúvida um caso de sucesso no controlo desta espécie. Os medronheiros plantados a partir de 2007 nas Bicas de Aguadalte (terreno da Quercus) mostravam-se esbeltos numa área antes ocupada por eucaliptos, ainda que aqui ainda haja muito para fazer.

Uma nota negativa, mas de outra natureza, foi a constatação de que uma organização (não identificada) pretendia circular ao longo do leito do Vale de São Francisco com alguma prova, como demonstrava a presença de plásticos de sinalização. Viria mais tarde a constatar-se que se tratava de uma prova de motas, uma opção inqualificável e uma afronta a quem (como todos os voluntários do PCS) há tanto tempo dedicam tanto esforço a tentar melhorar esta paisagem. Mas, ainda voltaremos a este assunto mais abaixo.

Ainda na encosta que confina com o Vale de São Francisco, a Costa da Malhada, mesmo ao lado das Bicas de Aguadalte, constatou-se que as árvores plantadas ao longo dos últimos dois anos precisavam de cuidados, o mote para a jornada seguinte.

Prontos para a partida, junto à capela de S. Francisco
A paisagem encontrava-se mais seca do que é habitual
As plantas de acácia-de-espigas estavam sobrecarregadas com galhas de “Trichi
Apesar das galhas, que comprometem a formação de praticamente 100% da semente das plantas, continuam a ocorrer germinações, do banco de sementes antigo.
Os medronheiros plantados a partir de 2007 nas Bicas de Aguadalte
Sobreiro plantado no ano passado na Costa da Malhada
Vista, já ao longe, da plantação da Costa da Malhada

Já na zona ribeirinha fez-se o reconhecimento de parte do percurso da Estação da Biodiversidade, a inaugurar no dia 21/6, admiraram-se as áreas de carvalhal que tanto trabalho têm dado a recuperar praticamente ao longo dos últimos 12 anos e fechou-se o percurso com a chegada ao Feridouro, num dia fresco e agradável, já prenunciando as chuvas por que esta paisagem tanto ansiava.

Chegada à zona ribeirinha
Atravessando uma das pontes da Estação da Biodiversidade
Continuando pela zona ribeirinha da Ribeira do Tojo
Madressilva em flor
O antigo moinho e os fetos-reais
O carvalhal da Ribeira do Tojo e uma acácia descascada
O grupo de participantes, já incompleto

E as chuvas vieram, no princípio de Junho, generosas e preciosas, de maneira que, aquando da realização da última jornada de Primavera, no dia 10 de Junho, já tinham caído quase 60 litros por metro quadrado (em Belazaima). Por isso, quando uma equipa voluntária chegou nesse dia à Costa da Malhada para dar cuidados às árvores instaladas, já se respirava outro ar que duas semanas antes.

Os trabalhos decorreram com dinâmica; o tempo, que continuava fresco, ajudava. O cuidado das árvores incidiu sobretudo sobre os sobreiros, que têm o hábito inusitado de não crescerem direitos e também de gerar ramos laterais muito vigorosos, que às vezes “absorvem” quase toda a energia da árvore, limitando o seu crescimento em altura.

O cuidado dos sobreiros foi o trabalho principal. Antes…
… e depois. O material desramado ficou em cobertura, pelo que o resultado não é muito visível…
Os medronheiros requeriam muito menos cuidados. Mas também tiveram alguns.
E ainda havia os arbustos plantados já este ano. Sofreram com a Primavera seca, mas, em geral, aguentaram-se. Aqui, uma murta.
Perspectiva geral
Larva em sobreiro
Erica cinerea em flor
Aqui não foram plantados carvalhos. Mas, aqui e ali, dispersos, aparecem alguns
Sobreiro cuidado.
Aranha amarela
Voluntária “amarela” com raminho de Agrostis
Voluntário junto a sobreiro de 1 ano, com 1,5 m de altura
A equipa voluntária do dia.

Outro dos trabalhos da equipa foi o de tomar medidas para gorar a tentativa de fazer passar uma corrida de motas pelo leito do Vale de São Francisco, como se tinha descoberto duas semanas antes. Aqui, pensa-se que se conseguiu, mas, algumas perguntas relevantes permanecem: em quantos outros locais tais abusos se repetiram? A Junta de Freguesia foi avisada, e os plásticos estiveram lá mais de três semanas. Alguém tratou de verificar e tomar medidas para impedir esses abusos? Abusos que, diga-se de passagem, têm acontecido repetidamente, embora com motas seja mais grave do que com bicicletas, e com bicicletas seja mais grave do que a pé. Quem protege esta já sacrificada paisagem dos predadores da paisagem? Qual é a resposta da sociedade mais larga e dos seus representantes? E porque é tão recorrente este tipo de comportamentos num momento da História da Terra em que a biodiversidade está em estado crítico à escala global, e aqui não é excepção, bem ao contrário? Simplesmente e apenas por um gigantesco falhanço de um sistema educativo? Ou não estaremos a ver bem as coisas? Quem souber dar respostas lúcidas e luminosas, que o faça, que nós agradecemos.

E assim nos despedimos da Primavera, ainda que esta tenha parecido mais Primavera no fim do que no meio e até no princípio.  A primeira jornada de Verão é já no dia 24, dia de S. João, mas por aqui festeja-se em trabalho voluntário. Até lá!

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