Incêndio de 2005

O incêndio de 18 de Setembro de 2005 foi um evento traumático, que ficou marcado na memória local, mesmo sendo o fogo um fenómeno relativamente frequente na região.

O Verão de 2005 tinha sido muito quente, seco e longo, e embora estivesse no final, assim não parecia. A noite de 17 para 18 de Setembro foi uma daquelas sinistras noites de vento de leste em que os três “feiticeiros” se unem para trazer maus augúrios: os “feiticeiros” da temperatura, do vento e da humidade relativa. Os temidos eventos de vento leste estão associados ao deslocamento do anticiclone dos Açores para o norte da Europa, mais precisamente o Canal da Mancha, e podem significar, no litoral de Portugal, uma subida de temperatura, tanto da máxima como da mínima de 10 a 15 ºC em relação aos valores mais habituais. É então que as típicas máximas de 28ºC podem subir aos 40 ou mais e as típicas mínimas de 12ºC podem de repente transformar as noites frescas em “noites tropicais” nas quais as mínimas podem chegar aos 27ºC. Paralelamente a humidade relativa cai em correspondência, não apenas por efeito das temperaturas, mas também por o ar marítimo ser substituído por ar continental. Quando, numa noite “normal”, a humidade relativa máxima no litoral ronda sempre os 100%, durante esses episódios pode ser tão baixa como 30%. Finalmente o vento, o mais “traiçoeiro” dos três “feiticeiros”: nestas condições os dias costumam ser calmos, com vento fraco, mas quando se criam condições propícias, já bem depois de o sol se pôr, porventura depois da meia noite, levanta-se um vento que pode ser apenas moderado mas que soa a forte, tirando coisas, normalmente metálicas, do seu lugar, com ruídos estridentes, fazendo abanar janelas que com outros ventos permanecem silenciosas e encontrando sempre maneira de assobiar, desafiador, nalgum beiral. Quem já dormia, acorda sobressaltado para não mais conseguir adormecer, pois tal vento só acalma depois do nascer do sol. E não apenas pelos ruídos mas pela memória.

Foi assim a noite de 17 para 18 de Setembro de 2015. Então juntou-se um quarto “feiticeiro”: o fogo, lançado em Linhar de Pala, no Concelho de Mortágua, pelas 23 h de 17. Os dados estavam lançados. Naquelas condições a progressão do fogo é rapidissima, qualquer tentativa de o combater inútil e perigosa, e ele “engole” em poucas horas, paisagens inteiras. O matagal é o seu alimento primeiro, mas nas consideradas condições meteorológicas, inflama violentamente as copas dos eucaliptos, que ardem vigorosamente, lançando para o espaço as suas folhas incandescentes, que, com a ajuda do vento e das fortes correntes convectivas locais as fazem cair às vezes centenas de metros mais para longe, ainda incandescentes e desencadeando novos focos de incêndio. Isso faz propagar o fogo ainda com mais velocidade.

Foi assim que, nas poucas horas dessa noite alucinante, arderam milhares de hectares em três Concelhos, arderam aldeias e terras de cultura e o fogo só foi parado de manhã, quando o vento acalmou. O Cabeço Santo e toda a mancha florestal a nascente e sul de Belazaima estavam fumegantes e um silêncio sepulcral se abatia sobre a paisagem. Quase três semanas depois ainda era frequente encontrarem-se focos de fumo, e a chuva tardava em chegar. Mas, nas áreas marginais do Cabeço Santo, houve quem não esperasse por ela: as campainhas-de-Outono, pequena planta de cor branca que surge normalmente com as primeiras chuvas de Outono, romperam as cinzas e floresceram. Foram as mensageiras da esperança. E não estavam sozinhas. A propósito, foi escrito este artigo, proposto para publicação num jornal local, mas que não deve ter sido considerado “de interesse”.

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Montanhas a sul de Belazaima na tarde de 18 de Setembro. Por curiosidade, a parcela cortada à direita, no Vale da Várzea (poente), viria, 12 anos depois, a ser integrada na área de intervenção do projecto
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Uma perspectiva do Cabeço Santo, a 7 de Outubro
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Medronhal do Cabeço Santo (Vale de S. Francisco)
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Um medronheiro, ainda a 7 de Outubro
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Em alguns locais as correntes convectivas foram tão fortes que partiram as árvores. Aqui mimosas.
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Campainha-de-Outono, a 7 de Outubro de 2005, no Cabeço Santo
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Outras plantas do matagal iniciavam já também a sua rebentação

Mas houve mais factos notáveis: algumas centenas de metros a montante do Feridouro, em torno do ribeiro, tinha-se instalado espontaneamente uma pequena mancha de carvalhos, em pequenas parcelas antes cultivadas. Essa mancha, não obstante estar completamente cercada por eucaliptos e ser de muito pequena dimensão, permaneceu verde no meio das cinzas: outro sinal de esperança.

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A mancha de Carvalhos de Vale de Barrocas, fotografada em Junho de 2006 do caminho entre o Feridouro e a mata do Cabeço Santo, quando o eucaliptal à sua volta rebentava já.

Esta mancha de carvalhos em poucos anos ficou de novo escondida com o eucaliptal, para só “reaparecer” aos olhos de quem passa no caminho entre o Feridouro e a mata do Cabeço Santo em 2014, quando o eucaliptal entre o caminho e o ribeiro foi de novo cortado. Mas desta vez seria para não ficar escondida de novo.