Uma história triste

Hoje temos uma história triste para contar. Não só triste, mas capaz transportar atrás de si decepção, desânimo, mesmo ira e raiva. O que nos motiva a intervir positivamente neste pedaço de terra que nos coube cuidar não se traduz apenas no que pode ser visto, é também o resultado das forças que animam as almas, só daí brotando essa energia que parece superar todos os obstáculos e dificuldades. Mas será que todos, mesmo?

O aviso já tinha sido feito, mas foi, talvez, subestimado: uma equipa ao serviço do titular da rede eléctrica de média tensão iria realizar trabalhos de gestão de combustíveis sob a linha que chega ao Feridouro e que daí segue para Agadão. A empresa foi por nós contactada. Um engenheiro ligou. Afirmámos a nossa posição sobre essa famigerada lei de gestão de combustíveis (D.L. nº 124/2006): é, pelo menos em alguns dos seus enunciados, uma lei absurda, sem sustentação técnica. Pela nossa parte, a única reacção que pode merecer é a que qualquer lei absurda deve merecer: a desobediência! Porque, caso fosse “obedecida”, estragos enormes e inúteis tinham já sido praticados na mancha florestal que praticamente abrange toda a vertente sul da aldeia do Feridouro. O engenheiro da referida empresa pareceu compreensivo: que também partilhava de reservas em relação à lei, e que até estava disponível para, não a cumprindo, pelo menos integralmente, assinar com o titular da propriedade, neste caso a Quinta das Tílias, um termo de responsabilidade em que este assumia (ou co-assumia) quaisquer consequências dessa decisão.

Mas a verdade é que, aos nossos olhos, tal promessa não foi cumprida. Chegada a equipa ao terreno, perto de um local onde a linha atravessa o Vale de São Francisco, foi autenticamente dilacerada uma das mais belas manchas de carvalhal que aí existem, tendo sido cortadas as maiores e melhores árvores. Árvores com pelo menos 30 anos, que nós não plantámos, pois que surgiram espontaneamente em antigas leiras cultivadas, mas que foram cuidadas, acarinhadas e admiradas, desde que essas terras foram adquiridas em 2016.

Ao cair, num local em que o elevado declive da antiga encosta foi, ao longo dos séculos, esculpido em socalcos com grandes muros de pedra a dividi-los, as árvores de um dos socalcos superiores, onde estavam as árvores maiores, caíram num inferior, que tinha árvores mais recentes, destruindo-as implacavelmente. Outras árvores, mesmo fora da “faixa” alvo, foram seriamente danificadas devido à queda das árvores cortadas. Constatar aquele cenário, de árvores enormes, algumas com 25 metros de altura, caídas e tantas outras danificadas, num local de particular beleza e em melhores condições do que a maior parte de outros em que trabalhamos, foi, à sua medida, tão demolidor como a própria devastação que perante os nossos olhos se apresentava.

Demolidor porquê, perguntarão? Por causa de uma dúzia de árvores cortadas debaixo de uma linha de eléctrica? E respondemos: sim, demolidor, não simplesmente pelas consequências, mas pela inutilidade absoluta do acto praticado. O risco que estas árvores apresentavam para a propagação de um incêndio era virtualmente nulo, tão nulo como a nula competência dos legisladores quando, no conforto dos seus gabinetes em Lisboa, resolveram que eram as árvores as responsáveis pelas calamidades incendiárias que periodicamente assolam o território. Pelos menos estas árvores, já que, quanto a outras bem conhecidas, nem nós pomos quanto a isso “as mãos no fogo”.

Vista da área afectada
Estragos provocados na vegetação circundante
Árvores caídas no socalco inferior
Outra vista da área afectada
Ramadas e danos “colaterais”
Troncos gémeos
Zona não afectada, “ilegal”, ali ao lado
Diâmetro do tronco
Estragos provocados nas árvores do socalco inferior
Mancha “ilegal”, a escassos metros da aldeia
Outra perspectiva do arvoredo “ilegal”
Árvore grotescamente decepada

Mas, e se os factos descritos forem apenas uma pequeníssima amostra do arboricídio que provavelmente se está a cometer por todo o país, este ano acentuado pela seca que se está a viver e alimentado pelo medo de que novas calamidades possam engendrar mais bodes expiatórios, para além de verdadeiros responsáveis?

Compreendemos que toda a sociedade esteja neste grave momento preocupada e indignada pela guerra, e nós também partilhamos dessa indignação. Mas, o que se está a passar aqui mesmo, também é uma guerra, não uma que se trava com armas de fogo contra pessoas e contra cidades, mas uma que se trava com moto-serras contra árvores e bosques. E uma que se trava já há demasiado tempo sem que forças significativas contra ela se tenham levantado.

Ousamos a partir deste recanto fazer ouvir a nossa voz aos mais elevados responsáveis pelo governo do país, o Senhor Primeiro Ministro e o Senhor Presidente da República, para que tomem medidas urgentes para corrigir essa lei que a todos devia envergonhar e que tantos danos está a causar ao nosso património natural, e talvez mesmo ao nosso património humano, pois uma sociedade que não é estimulada e ensinada a prezar as árvores, para além dos cifrões que elas representam, não é uma sociedade verdadeiramente digna do pedaço de terra que pisa.

Paulo Domingues (cuidador da Quinta das Tílias) e Jorge Morais (presidente da Direcção da Associação Cabeço Santo)

4 Replies to “Uma história triste”

  1. Estimados senhores,

    Boa tarde.

    O meu agradecimento pelo trabalho por vós desenvolvido em prol desta causa.

    Venho apenas sugerir que enviem este texto para os gabinetes de apoio do Sr. Presidente da República, do Sr. Primeiro Ministro e de todos os partidos políticos com representação parlamentar, bem como para todas as ONG de ambiente portuguesas, para que em conjunto se possa trabalhar no sentido desta lei, que também considero absurda ou desadequada, poder ser discutida e alterada.

    Votos de continuação do bom trabalho.

    Cumprimentos,

    Joaquim Gonçalves

    1. Obrigado Joaquim,
      Entretanto fomos informados de que o referido D.L. nº 124/2006 já tinha sido revogado em finais de 2021, tendo sido substituído por outro, o D.L. nº 82/2021 que entrou em vigor no início de 2022. Mas permanece a dúvida: este novo D.L. comete os mesmos erros que o anterior? Pois não sendo assim, o que justificou os abates realizados, já à luz do novo D.L.?
      Quanto ao papel das ONG, pelo menos a Quercus já desenvolveu um trabalho de recolha de contributos (no qual nós participámos) no sentido de influenciar uma alteração da lei. Iremos tentar perceber em que medida isso continua a ser necessário com este novo D.L. Já deu para ver que tem 47 páginas e muita “palha”. Quanto ao resto…
      Paulo Domingues

  2. Estava a escrever umas coisas, pouco “bonitas”, mas achei que era melhor apagar. Afinal de contas não se espera que este espaço de comentários seja como alguns, onde se “mata e esfola”.
    Mas a vontade era muita, porque esta situação deixou-me deveras furioso.
    Mais que triste, é revoltante o que que foi feito sobretudo depois do contacto havido.
    Uns constroem e outros destroem.
    Abel Barreto

  3. Olá Equipa,
    Realmente é triste e revoltante ver que quem trabalha meramente por “amor à camisola”, vê o seu trabalho e em especial, a Natureza, a serem destruidas. E tudo isto a coberto de leis feitas à medida de certos interesses….porque todos nós sabemos, mas não podemos provar, que o que provoca os incêndios não são as árvores grandes….e os “incendiários ” que são apanhados, também não são os únicos responsáveis….nunca ouvi falar que tivessem apanhado quem lhes paga para fazerem o ” trabalho “….
    Continuação do excelente trabalho que fazem e da muita força de vontade que têm…..
    Um bem haja.

    Júlia Brinco

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